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Luiz Roberto Nascimento Silva

Jornal do Brasil
05 de janeiro de 2012

Luiz Roberto Nascimento Silva fala ao 'JB' sobre livro 'Com o suor na alma'

Ex-ministro da Cultura lança primeira obra em prosa


Ex-ministro da Cultura do governo Itamar Franco e ex secretário de Cultura de Minas Gerais, Luiz Roberto Nascimento Silva acaba de publicar o seu sétimo livro, o primeiro em prosa - Com o suor na alma, pela Topbooks. Nesta entrevista ao JB, Luiz Roberto fala do processo de criação, de sua relação com o leitor e da nova experiência literária. "Todo artista é uma antena que capta ondas do momentohistórico. Nesse sentido, o povo é um inventa-línguas; o escritor, um cirurgião de palavras", descreve.

Confira a entrevista:

Reinaldo Paes Barreto - Luiz Roberto – e como me dirijo ao escritor em poesia e prosa, me permito dispensar o título de ministro - por que depois de seis livros de sucesso no âmbito da poesia [o seu alter ego literário], surgiu essa incursão pela difícil novela?

Luiz Roberto – Surgiu naturalmente. Eu havia escrito alguns contos que estavam na gaveta. Sem que percebesse porque, um deles passou a me interessar de forma particular. Na versão inicial ele se chamava Sofá suado. O desenvolvimento desse conto é que fez surgir a novela Com o suor na alma.

RPB - Quanto tempo levou para escrevê-lo?

LR – Cerca de quatro anos. Eu escrevo e publico pouco. Meu último livro saiu em 2005, ou seja, há seis anos. Não tenho a obsessão de produzir uma obra no sentido mais literal. Só publico o que me parece efetivamente importante e que tenha passado por uma revisão e uma decantação profunda. João Cabral dizia o seguinte, com toda a razão: como, na maioria dos casos, a literatura no Brasil não permite que se viva dela, isso representa uma grande libertação, pois o escritor pode publicar apenas o que julga ser essencial para ele.

RPB - Há uma clara referência marxista no seu texto. Como encara isso?

LR – Acho perfeitamente natural. Marx continua atualíssimo. Certamente nenhum outro economista, nem mesmo Keynes, produziu uma revolução tão importante no pensamento. A noção de que a história da sociedade é a história da luta de classes é demarcadora. O conceito da mais-valia, segundo o qual os trabalhadores geram muito mais dinheiro do que recebem, continua atual. O que ocorreu é que o Marx profético foi totalmente ultrapassado, pois não imaginou a possibilidade de o próprio capitalismo corrigir seus excessos.

RPB - Como você gostaria que o leitor lesse sua novela?

LR – Da forma mais livre possível. Isso é fascinante no processo artístico: cada livro é uma obra aberta na qual o leitor recria o texto à sua maneira. Nesse sentido, o que o escritor pensou ou pretendeu dizer deixa de ser importante; o fundamental é o que o leitor sentiu ao ler. Não desejo falar sobre o livro em si mesmo. Não me cabe explicá-lo. Quero que o meu leitor se deixe levar por suas próprias emoções e tire suas próprias conclusões.

RPB - Você publicou poesia por 35 anos e agora estreia na prosa de ficção. Como se deu essa experiência?

LR - Naturalmente. Não me organizei para escrever prosa. O desejo de retomar o projeto do conto foi responsável por essa passagem. Tive um período duro de aprendizado. O poema nasce mais ou menos pronto na sua cabeça, mesmo que você passe anos trabalhando e retrabalhando o verso. Mas a ideia central, o cerne cognitivo já vem naquele momento. Por isso você pode se expressar completamente numa única página. Na prosa não. Você tem que contar uma estória, tem que prender o leitor à dinâmica de sua narrativa. Os diálogos trazem as diferentes dicções dos personagens. Além disso, esses personagens a partir de um determinado momento adquirem vida própria, independente de você como escritor. Alguns se recusam a morrer; outros impõem modificações na estrutura inicial da sua ideia.

RPB - Pretende agora publicar prosa de ficção ou poesia?

LR - Não tenho a menor ideia. Sempre que termino um livro tenho a impressão de que não publicarei mais nada por conta do esforço obsessivo na sua finalização. O tempo dirá. Nietzsche afirmava que só acreditava naquilo que o escritor escrevia com seu próprio sangue. É claro que devemos interpretar essa frase no sentido metafórico, em que só prevalece o que seja uma verdade íntima e permanente do autor. Todo artista é uma antena que capta ondas do momento histórico. Nesse sentido, o povo é um inventa-línguas; o escritor, um cirurgião de palavras. Todo escritor está sempre trabalhando em algum material inédito, mas só interessa publicar o que tenha essa força específica.


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