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Luiz Roberto Nascimento Silva

Jornal do Brasil
22 de novembro de 2013

Ex-ministro Nascimento Silva lança novo livro


O ex-ministro da Cultura do governo Itamar Franco e ex-secretário de Cultura de Aécio Neves (MG), Luiz Roberto Nascimento Silva, lança, na próxima semana, o seu novo livro "A Nova Peste", pela Editora José Olympio. É o oitavo individual e o primeiro de ensaios. Ele conversou com exclusividade com Reinaldo Paes Barreto.

JB - Há dois anos conversamos neste mesmo jornal sobre o lançamento de sua novela. Como surgiu a ideia de publicar um livro de ensaios?

LR - Reinaldo, na verdade eu não planejei isso. Não planejo escrever de uma forma ou de outra, simplesmente vou escrevendo. Não planejei ir da poesia para a prosa de ficção no caso da novela. Agora a mesma coisa. Não planejei os ensaios. Fui escrevendo textos que poderiam inicialmente ser artigos para a imprensa, mas que foram se alongando e se tornaram ensaios.

JB - JB - Quais os temas essenciais?

LR - Na verdade são cinco ensaios e um texto antigo em prosa poética “Manifesto Artístico” que nunca havia publicado que me parece extremamente atual e que resolvi resgatar. Diria que existem dois ensaios centrais. Um que aborda a importância do Fausto de Goethe na formação do homem contemporâneo através do qual faço uma reflexão sobre o envelhecimento e a morte. Esse tema é examinado na longa tradição literária e confrontado com a nova realidade mundial na qual se prolongou a expectativa da vida enormemente, mas os problemas humanos centrais continuam presentes. O outro é um ensaio sobre o impacto da internet no mundo contemporâneo. A questão é analisada em seu aspecto econômico pela modificação de cadeias econômicas clássicas, bem como na sua dimensão humana com as alterações introduzidas no campo da política e da linguagem. Nesse ensaio debato pela primeira vez no país a segurança do nosso sistema de votação eletrônica.

JB - Você coloca em dúvida a segurança do nosso sistema eletrônico de votação? Você acha ele falho?

LR - Não coloco em dúvida, nem acho ele falho. Apenas mostro que o processo eleitoral é feito de três etapas indissolúveis: votação, apuração e fiscalização. Acho que do ponto de vista da votação e da apuração houve um enorme avanço, mas que do ponto de vista da fiscalização o sistema não foi testado. Além da intuição pessoal trago depoimentos de técnicos do setor de computação. Não se trata de uma tecnofobia, não é isso. Não desejo o retorno do sistema anterior. Entretanto a mim me intriga que países como os Estados Unidos, a Alemanha, que possuem enorme domínio tecnológico não tenham aberto mão de um controle humano paralelo. É mais ou menos isso que está no ensaio.

JB - De onde você tirou o nome “A Nova Peste”?

LR - O título do livro que também é o do ensaio sobre a internet sobre o qual me referi acima foi inspirado numa passagem real vivida por Freud e Jung quando ambos chegavam aos Estados Unidos para divulgarem a psicanálise. Quando estavam chegando no porto de Nova York, Freud teria perguntado a Jung: “será que eles sabem que estamos trazendo a peste?” Imaginei que dialogo semelhante poderia ter ocorrido com Steve Jobs e Bill Gates no início dos anos 80 no Vale do Silício. Eles traziam uma nova peste que iria revolucionar o mundo integralmente nos anos seguintes até hoje.

JB - Um dos ensaios é dedicado às artes plásticas. Nele há uma crítica grande a síndrome das instalações se é que podemos designar assim. Poderia explicar melhor?

LR - Não se trata de uma crítica às instalações em si mesmas, mas antes a um conjunto de obras que surgem sem nenhuma força linguística especial. Pessoalmente gosto de várias instalações como por exemplo as do Waltercio Caldas, Senise e Zerbini. E porque gosto delas? Porque elas surgem dentro do bojo de um trabalho artístico mais amplo desses artistas no qual as instalações são uma das formas de expressão e não um fim em si mesmo. O que denuncio é a associação midiática entre o espaço público – o museu- , um curador que é ligado a um artista e a obra escolhida para fechar esse triângulo. O que defendo é que a obra de arte em qualquer nível é linguagem, é a maneira como o artista consegue decifrar o mundo ou ao menos parte do enigma que o caracteriza. Acrescentar objetos materiais ao mundo material- como tem ocorrido com parte da produção em artes plásticas atual- não é a meu função do artista, nem da arte.

JB - Você acha que há um boom das artes plásticas? Os preços de determinados trabalhos não parecem às vezes irreais?

LR - Veja: não trato disso no livro, mas direi o que penso. Não podemos confundir duas coisas distintas: arte e mercado. No momento atual, qualquer moça rica que não sabe o que fazer da vida monta uma galeria e se transforma numa nova crítica de arte. Numa sociedade sem valores, de moeda eletrônica, instantânea, a arte se tornou um refúgio de investimento alguma coisa confiável na qual as pessoas decidem colocar seu dinheiro. Isso é o mercado. Nada tem a ver com a arte em seu sentido mais profundo. A história nos mostra. Na Holanda do século XVII Rembrandt era o grande artista, o maior pintor. A burguesia que havia consagrado suas obras em certo momento dá as costas a ele e o abandona. Ele termina a vida sem dinheiro pintando autorretratos, pois, não tinha recursos para pagar um modelo. Surge um novo querido para essa mesma burguesia. Com a depuração do tempo tudo foi revisto. Hoje a importância desse pintor é nenhuma e a obra de Rembrandt é a central da produção flamenga daquele período. O exemplo de Van Gogh é o mais dramático e não precisa maiores detalhes. Em geral, nem sempre o grande artista consegue o seu maior reconhecimento em vida. Há exceções, como Picasso, que desde a fase azul ficou famoso, teve suas obras valorizadas e continuou sendo um artista genial. Outros artistas se desintegram artística e economicamente falando. Portanto, mercado é uma coisa; arte é outra. Podem sem juntar mas não necessariamente há uma ligação imediata e segura.

JB - Fechando a entrevista. Há um grande ensaio sobre a religião católica. O que você quis dizer com ele?

LR - Esse ensaio analisa a enorme redução da população católica no Brasil nos últimos 20 anos. Os dados do IBGE mostram uma redução crescente e contínua e de outro lado o crescimento dos evangélicos. Eu faço uma série de suposições e hipóteses sobre o assunto. Aliás essa é uma tônica de A Nova Peste. Eu formulo hipóteses. Faço perguntas. Estou mais preocupado com as perguntas do que propriamente com as respostas. Nesse ensaio sustento que a Igreja Católica se afastou do núcleo central do cristianismo e se deixou conduzir pela Cúria Romana. Faço um prognóstico – quando escrevi o texto isso era uma hipótese- que a renúncia do Papa Bento XVI teria sido o maior momento de seu papado sem marca especial. Depois atualizei o texto para a publicação e sustento que o Papa Francisco talvez possa trazer esse “aggiornamento” da Igreja na linha do Concílio Vaticano II desenhado por João XXII e esquecido pela Cúria Romana. Acredito que isso de uma certa forma já se está realizando. Vamos ver. Continuo um otimista militante.


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